Gérard Encausse, conhecido como Papus, nasceu em 13 de julho de 1865 na Espanha, na cidade de La Coruña, filho de pai francês e mãe espanhola. Após haver passado sua juventude em Paris, estudou medicina. Em meados dos anos 1880, e antes mesmo de terminar sua formação, apaixonou-se pelo esoterismo. Devia esse interesse à descoberta das obras de Louis Lucas, químico, alquimista e hermetista. Apaixonado também pelo ocultismo, estudou os livros de Éliphas Lévi. Logo entrou em contato com o diretor da revista teosófica O Lótus Vermelho, Félix Gaboriau, e conheceu Albert Faucheux (Barlet), um ocultista erudito. Em 1887, Papus se afilia à Sociedade Teosófica, fundada alguns anos antes por Helena Blavatsky e pelo Coronel Olcott.

A iniciação martinista

Admite-se geralmente que Papus e Augustin Chaboseau foram iniciados ao Martinismo através de filiações diferentes. A de Papus vinha de Henri Delaage, ao passo que a de Augustin Chaboseau passava por Amélie de Boisse-Mortemart. Papus dizia de fato que havia sido iniciado por Henri Delaage (1825-1882), quando era apenas um adolescente de 17 anos. Alguns meses antes de sua morte, Papus disse:

« Delaage quis transmitir a outro a semente que lhe havia sido confiada e da qual ele não podia colher nenhum fruto. Pobre legado constituído por duas letras e alguns pontos, resumo dessa doutrina da iniciação e da trindade que havia iluminado todas as obras de Delaage. »

Papus apresentava Henri Delaage como tendo sido iniciado por Jean-Antoine Chaptal (1756-1832), seu avô, o qual teria sido discípulo de Saint-Martin. Ignora-se se o célebre químico, conselheiro de Estado, ministro consular e do Império realmente teve relações com Louis-Claude de Saint-Martin. Sabe-se contudo que ele havia sido iniciado na franco-maçonaria por volta de 1789 na Loja „Perfeita União”, do Oriente de Montpellier.

Henri Delaage jamais alardeou ter sido ele próprio iniciado por seu avô. Além disso, no momento da morte desse último, ele tinha apenas sete anos. Assim, a tradição diz que entre Henri Delaage e Jean-Antoine Chaptal existiu um iniciador cujo nome não chegou até nós. Contudo, é provável que tenha sido seu próprio pai, Clément Marie-Joseph Delaage (1785-1861). De fato, como mostra a correspondência trocada entre este e Charles Geilles entre março e agosto de 1811, ele conhecia bastante bem o pensamento de Louis-Claude de Saint-Martin a ponto de dar ao seu interlocutor conselhos de leitura quanto às obras do Filósofo Desconhecido.

É na ocasião de seu encontro com Augustin Chaboseau que Papus revelará sua qualidade de iniciado martinista. Em 1888, os dois decidem estabelecer em comum a iniciação de que são depositários e começam a transmitir essa iniciação a alguns amigos. Dessa forma eles estabelecem as bases da Ordem Martinista. Ainda que a Ordem não disponha naquele momento de nenhuma estrutura, o número de iniciados aumenta rapidamente.

Papus ainda não terminou seus estudos e se prepara para o serviço militar. Será apenas em 7 de julho de 1892 que ele defenderá com sucesso a sua tese de doutor em medicina sobre as analogias histológicas entre os órgãos. Todavia, que atividade! Já fundou a Escola Hermética, organizou a Ordem Martinista, criou as revistas L’InitiationO Véu de Isis e já escreveu o Tratado Elementar de Ciências Ocultas (com 23 anos) e O Tarô dos Ciganos (com 24 anos).

Para assianr as suas primeiras obras, adotou a alcunha de « Papus ». Esse nome designa o gênio da medicina – um dos sete gênios da primeira hora do Nuctaméron, um texto atribuído a Apolônio de Tiana.

Ruptura com a Sociedade Teosófica

Em 1890, Papus rompe com a Sociedade Teosófica, cujas concepções esotéricas ele julga demasiado orientalistas. Ele não partilha a posição dos teósofos que reivindicam a superioridade absoluta da tradição oriental. Por sua atitude, ele toma o partido de vários de seus amigos da Fraternidade Hermética de Luxor.

Na França, era Charles Barlet (Albert Faucheux, 1838-1921) quem dirigia essa Ordem e a maioria dos membros fundadores da Ordem Martinista foram membros da Fraternidade Hermética de Luxor.

Papus deseja restaurar o esoterismo ocidental dando-lhe um aspecto mais científico. Ele quer reativar uma Ordem enraizada no esoterismo cristão para preservar a perenidade da tradição ocidental e faz do Martinismo o crisol dessa transmutação.

Após deixar a Sociedade Teosófica, dá uma estrutura mais funcional ao Martinismo. Com Augustin Chaboseau, reúne alguns amigos, como Stanislas de Guaita, Lucien Chamuel, Charles Barlet, Maurice Barrès, Joséphin Péladan, Victor-Émile Michelet e alguns outros. Nasce dessa forma a Ordem Martinista. Papus é eleito Grande Mestre em julho de 1891 e, graças aos seus talentos de organizador, a Ordem toma rapidamente um impulso considerável. L’Initiation, revista mensal, se torna o seu órgão oficial e lojas são criadas esparsamente pela França, depois na Europa e por fim pelo mundo.

Os primórdios da Ordem Martinista

Para sustentar seu esforço de renovação do esoterismo ocidental, Papus funda a Escola Superior Livre de Ciências Herméticas, onde ministra cursos e dá conferências. Torna-se também um dos membros mais importantes da Ordem Cabalística da Rosacruz, fundada por seus amigos Stanislas de Guaita e Joséphin Péladan. Essa organização se torna então o círculo interno da Ordem Martinista.

Em 1908, Papus organiza uma grande convenção espiritualista internacional em Paris, manifestação que reúne mais do que trinta organizações. Em suas múltiplas alianças, Papus por vezes sai do sério por conta de veemência de seus colaboradores. Assim ocorreu com a Igreja Gnóstica. Diz-se muitas vezes que esta igreja, fundada por Jules Doisnel por volta de 1889, após uma experiência espírita, se tornou „a Igreja oficial” dos martinistas. Se por um lado estabelece laços com muitas organizações, como os Iluminados, os Babistas, o Rito Escocês, a misteriosa Fraternitas Thesauri Lucis (F.T.L.) ou Memphis Misraïm, por outro lado a Ordem Martinista não deixa de conservar sua independência.

Papus havia conseguido perfeitamente conferir ao Martinismo uma estrutura internacional; contudo, nem sequer havia conseguido religá-lo ao sistema filosófico que constituia sua fonte – aquele outrora elaborado por Louis-Claude de Saint-Martin de acordo com a doutrina de Martinès de Pasqually. A causa desse insucesso repousa indubitavelmente sobre a herança demasiado fragmentária que lhe fora legada por seus predecessores, o « pobre legado constituído por duas letras e alguns pontos ». Ao lermos as obras de Papus, particularmente a que se intitula Louis-Claude de Saint-Martin, sua vida, sua via teúrgica, sua obra, seus discípulos (Chamuel, 1901), sentimos que ele não possui todas as chaves. Ele confunde frequentemente o Martinismo com o ocultismo e a cabala com o esoterismo cristão específico do Martinismo. Em 1901, o responsável pela Ordem Martinista para os Estados Unidos, o doutor Édouard Blitz, lhe censurará por isso numa Memória Confidencial, um relato no qual ele salienta com razão as confusões de Papus.

O Mestre Philippe

Em 1894, Papus havia reencontrado Philippe Nizier (1849-1905), alcunhado Philippe de Lyon, personagem que o leva a se afastar progressivame do ocultismo para se aproximar da mística. Depois de Saint-Yves d’Alveydre, que foi seu « mestre intelectual », Philippe Nizier foi seu « mestre espiritual », enfatiza Gérard Encausse. Os dois irão diversas vezes à Rússia. Papus mantinha de fato relações de amizade com a família imperial. Efetuou três viagens à Rússia: em 1901, em 1905 e em 1906. No decurso de sua estadia de outubro de 1905 em São Petersburgo, o czar Nicolau II lhe pede que dirija um experimento cujo objetivo era evocar o espírito de seu pai, Alexandre III. O czar desejava obter os conselhos de seu ancestral quanto à atitude a se tomar contra as insurreições que espalhavam o terror em Moscou na época. O fantasma do czar teria recomendado esmagar a revolta nascente, sabendo que ela acabaria contudo por acarretar a revolução do povo russo. Papus teria afirmado ao czar que essa revolução não eclodiria enquanto ele próprio estivesse vivo.

A Guerra 1914-1918

A Primeira Guerra Mundial desfere um golpe fatal no Martinismo. Em 1914, todos se engajam para defender sua pátria e Papus se voluntaria para o front. Ele é médico-chefe com a patente de capitão. O médico militar se desgasta com a tarefa. Tendo se tornado diabético, contrai também tuberculose e morre em 25 de outubro de 1916. Especula-se por vezes que, pouco antes de sua morte, Papus teria confiado a Georges Loiselle o cuidado de dissolver a Ordem Martinista. É preciso dizer que o movimento começava a desandar desde 1912. Todavia, essa informação não é sustentada por nenhum documento.

Charles Détré, alcunhado Teder (1855-1918), se apresentou como sucessor de Papus, porém Augustin Chaboseau afirmou que ele não poderia sê-lo, pois como a guerra havia dispersado o Supremo Conselho da Ordem Martinista tinha sido impossível eleger um novo Grande Mestre.

Un dos primeiros martinistas, Jollivet Castelot, logo diria: « O Martinismo morreu com Papus » (Ensaio de Síntese das Ciências Ocultas, 1928). Diversos martinistas tentarão não obstante assumir a direção da Ordem, criando-se assim diversos grupos que reivindicavam cada qual a herança de Papus. Estes modificaram de tal forma a sua natureza que muitos martinistas preferiram não se associar a tais projetos, escolhendo manter sua independência. As coisas mudarão em 1931, quando os sobreviventes do Supremos Conselho da Ordem de 1891 se unirão a Augustin Chaboseau para despertar o Martinismo original sob o nome de Tradicional Ordem Martinista.

Papus deixou uma produção literária impressionnante, a qual lhe valeu o apelido de « Balzac » do ocultismo. Por seus talentos de difusor, ele contribuiu para a renovação do esoterismo ocidental, embora seja preciso observar que dentre as suas 160 obras, almanaques, revistas e artigos há algumas que carecem às vezes de precisão.

Christian Rebisse