A doutrina de Saint-Martin é clara e simples. Sua verdade pode ser percebida facilmente por qualquer homem de boa vontade, pois este místico francês primeiro adquiriu o conhecimento das leis divinas e então moldou sua doutrina de acordo com elas. Através de suas obras, ele desejava difundir a luz do conhecimento que lhe adveio por revelação. Todavia, o horror persistente de um possível abuso por parte de pessoas não preparadas ou de má vontade o levou a se utilizar do véu dos símbolos esotéricos ao abordar as verdades destinadas aos iniciados. A obra de sua vida imortalizou seu nome não apenas em seu próprio país como também ao redor do mundo, pois o resquício de luz que se inicia na própria fonte universal da luz brilha inelutavelmente para toda a humanidade.

Introdução

« Eu queria fazer o bem, mas não queria fazer barulho, pois senti que o barulho não faz bem e que o bem não faz barulho. » – L.C. de Saint-Martin

Na grande família das nações, apesar das diferenças de raça, de nacionalidade e de língua, existe certa tendência, da parte de homens evoluídos espiritualmente, a se aproximarem uns dos outros; os homens com almas de natureza semelhante que buscam a plenitude de sua humanidade e que, não podendo atingi-la unicamente no plano físico, prosseguem essa busca nas regiões superiores onde seu desejo ardente os conduz ao próprio santuário do Deus Vivo. Esses pioneiros se conhecem entre si por sinais visíveis e invisíveis e dão prova de um grau de desenvolvimento e de renascimento em espírito real e definitivamente concluso. Em certos casos de proximidade espiritual particular, o elo que existe entre eles se torna tão estreito que até mesmo aquilo a que chamamos morte deixa de ser um obstáculo.

Uma família espiritual unida não existe num determinado momento encarnada, mas cada um de seus membros descobre cedo ou tarde os traços dessa família e as benesses que dela provêm pelos tesouros espirituais secretos que foram acumulados pelos que lhe precederam. Cada qual, na senda do desenvolvimento de si, tende ao conhecimento do seu próprio Eu e se esforça para despertar o transcendental – a imagem eterna encerrada em si – a fim de tornar perceptível e compreensível o texto do Divino pensamento depositado em si e a fim de obter a mais plena e a mais pura manifestação deste. Eis os que diz a respeito o Evangelho de Mateus: « Busca e encontrarás… Pergunta e te será respondido. » Quem quer que deseje ardentemente e que busque com perseverança e ardor para alcançar o Ideal Divino com todas as forças de sua alma certamente há de encontrar ajuda e apoio.

Na verdade, aquele que é corajoso conquista o Reino dos Céus suplantando a oposição dos maus instintos da natureza, rejeitando todo compromisso e tendendo eternamente a se elevar ao Reino da Luz e da Liberdade. Louis-Claude de Saint-Martin era um cavaleiro assim, impulsionado em busca da luz. Ele foi reconhecido como um dos maiores místicos da França, mas a obra de sua vida não figura apenas naquilo que escreveu. Toda a sua existência foi devotada à ideia de um grande renascimento da humanidade e ele provocou um profundo eco não unicamente na França, mas também em toda a Europa Ocidental e Oriental. Encontramos traços de sua influência nas obras criativas de nossos poetas proféticos, como particularmente no polonês Adam Mickiewicz.

Para poder compreender Saint-Martin devemos nos aprofundar em sua obra, percorrer sua vasta correspondência e estudar sua biografia (publicada por Papus, Matter, Franck e outros), apresentada por muitos artistas e críticos muitas vezes de forma parcial e errônea. Um observador refinado não teria nenhuma dificuldade em descobrir o Saint-Martin verdadeiro – uma imagem dele que não seja deformada. Seu Eu real passou por diversas fases de desenvolvimento; discípulo e adepto da ciência esotérica de Martinès de Pasqually, que era um humanista, teurgo e místico, vemos os degraus da escada que ele subiu pelo próprio título de suas obras sucessivas: O Homem de Desejo, O Novo Homem, O Ministério do Homem-Espírito.

saint-martin-foto02 Os traços principais do caráter de Saint-Martin eram uma atividade viril e vigorosa, uma sensibilidade fina e feminina e um refinamento inato. Sua atitude intrépida e inabalável ao se erguer em defesa dos ideais que professava, sustentados virtualmente por seu modo de vida, o faziam muitas vezes parecer duro, mesmo para com seus amigos, mas ele era o primeiro a sofrer com isso. Era preciso que certa ternura brotando do coração se incumbisse de aliviar a pena que ele não podia evitar de infligir aos outros. Seu misticismo não era abstrato e desconectado da vida. Ele se esforçava para penetrar no seio da mesma Divindade e, com a luz do conhecimento, iluminar todos os aspectos da vida. Ele havia descoberto o segredo da felicidade na Terra, o equilíbrio perfeito entre a lei e o dever, a harmonia entre os ideais professados e a vida de todos os dias. Ele considerava que a coexistência dos diferentes povos deveria se basear na fraternidade, pois esta conduz para a igualdade espiritual de todos e para a liberdade que é a expressão natural dos princípios de fraternidade.

house-martinismeSaint-Martin nasceu em Amboise no dia 18 de janeiro de 1743. Sabemos pouquíssimas coisas sobre sua infância. Sua mãe morreu quando ele ainda era muito jovem e essa perda deve ter exercido uma profunda influência na maneira como sua personalidade foi moldada. Disto provêm sua sensibilidade extrema, o superdesenvolvimento do sentimento em busca de uma resposta e a doçura de seu refinamento. Entre ele e seu pai havia uma certa falta de compreensão e mesmo já nos primeiros anos de atividade de Saint-Martin os conflitos se tornaram inevitáveis. Conhecemos pouca coisa de seus irmãos, mas parece também que a relação entre eles não era harmoniosa. A tristeza apertava o coração de Saint-Martin em sua primeira juventude, mas sua reação mostrou mais força do que fraqueza.

No plano de fundo de uma infância não muito feliz se elevava na alma de Saint-Martin a ardente aspiração a uma vida superior; a ausência de amor no âmbito do círculo familiar o incitou a procurar o amor de Deus. As cartas de Saint-Martin nos dizem a que ponto ele tentou conscientemente cumprir com os deveres para com seu pai, mesmo que às custas de um grande sacrifício, obstaculizando dessa forma os planos que ele elaborava para o seu próprio futuro. Após haver terminado o colégio, seu pai quis que ele estudasse direito; Saint-Martin obedeceu ao seu pedido. Todavia, logo ficou bem convencido da impossibilidade de continuar naquela direção. As complexidades do direito e sua relatividade iam de encontro àquilo que compunha a trama de seu caráter. Ele estava em busca de outro tipo de direito – de outra forma de lei.

Nessa época de sua vida, Saint-Martin não podia ver claramente qual era o seu caminho, pois ainda lhe faltava o poder de vontade consciente – de onde adveio seu segundo erro: o serviço militar. Este também não duraria muito tempo, porém naquela altura de sua vida algo começava a se cristalizar no seio de seu ser – uma porta parecia se abrir para o jardim encantado no qual ele devia iniciar sua missão. Ele trava conhecimento com o Senhor de Grainville, oficial como ele, e com o Senhor de Balzac, ambos discípulos de Martinès de Pasqually. Gradualmente suas relações se estreitam. Saint-Martin foi recebido no círculo interior de Martinès de Pasqually. Foi iniciado e se tornou para Pasqually um aluno eleito e seu secretário. Deixou o exército e se devotou inteiramente à sua obra. A ideia de Reintegração da humanidade prenunciada por Pasqually o atraía fortemente. Com lealdade e um grande fervor, Saint-Martin começou a executar todas as ordens de seu mestre, estudando sua teoria e se submetendo às práticas recomendadas e às práticas teúrgicas.

imagem-tomA amizade com mulheres desempenhou um papel importante na vida de Saint-Martin; o caráter delas era pleno de vivacidade e de entusiasmo: Duquesa de Bourbon, Madame de Bry, Madame de Saint-Dicher, Madame de Polomieu, Madame de Brissac e outras. Madame de Bœcklin teve um papel significativo na vida de Saint-Martin graças à sua alta espiritualidade e à sua grande inteligência. Ela lhe inspirava a ler as obras de Jacob Bœhme. Os anos anteriores foram apenas uma preparação, pois agora sua alma se desabrochava tal como uma flor. A luz do conhecimento espiritual fluía das obras de Bœhme para o ser interior agora preparado de Saint-Martin e dava uma sedução inesperada à sua missão. Ele sentia uma nova plenitude – uma liberdade ante a influência opressora do mundo exterior – agora transformada num simples ambiente propício para uma ação frutuosa.

A grande Revolução Francesa poupou Saint-Martin. Enquanto iniciado de alto grau, ele podia facilmente perceber o significado de eventos terríveis, porém, ainda que se compadecendo da massa de sofrimento que submergia a França, ele jamais tentou prevenir as decisões do destino como o fizeram outros iniciados, segundo Cazotte, místico e homem digno e de alta moralidade com o qual ele mantinha uma relação próxima. Quando a morte projetava sua sombra sobre Paris, ceifando vítimas da nobreza, Saint-Martin se sentia em segurança na cudade, ao passo que ajudava aqueles que tinham necessidade, sem temer por sua própria vida, a qual havia posto nas mãos de Deus.

Quando ele foi forçado a trocar Paris por Amboise, lá permaneceu até seu próprio fim. Morreu em 13 de outubro de 1803. Os alunos de Saint-Martin declaram que os últimos momentos de sua vida foram elevados em êxtase. A luz o rodeava e o transfigurava. Ela já havia vivido noutro plano e provava que a morte de um místico e de um iniciado é desprovida do temor do desconhecido. Para uma alma liberta, a morte permite se desfazer das limitações da matéria; é um retorno do exílio. Uma reunião com o Pai Celeste.

Após ter lido atentamente os documentos disponíveis, propomos agora paresentar com mais precisão as fases de desenvolvimento de Saint-Martin. Sua alma buscava se manifestar na vida exterior de uma forma correspondente às suas aspirações e aos seus desejos, que ainda eram vagos. Seu encontro com de Grainville e com de Balzac produziu uma mudança para toda a sua vida. Ele pareceu receber uma diretriz patente quanto à orientação futura de sua vida. Desde sua primeira juventude ele esteve sempre pronto para uma submissão ávida ao imperativo interior e jamais sua natureza exterior se opôs a isso. Isso parece ter sido como uma previsão de sua própria missão, que exigia a renúncia e o holocausto de sua natureza inferior, o contrário representando a oposição ao serviço da verdade, da modéstia e da humildade.

Martinès de Pasqually foi o primeiro instrutor de Saint-Martin. A ideia mestra de sua doutrina da reintegração do homem, ou seja, o retorno ao estado primeiro que era o seu antes de mergulhar no mundo material dos fenômenos, enleva Saint-Martin. Subjugado pela grandeza e pela beleza da verdade, ele se devota voluntariamente a todos os estudos necessários e a todas as práticas requeridas. Na escola de Martinès, em Lyon, a senda do Iluminismo conduzia à prática da « magia cerimonial », sendo o objetivo último a união com Deus. Martinès de Pasqually funda em Lyon uma assembleia com o nome de Élus-Cohen. Era uma época em que as questões esotéricas e aquilo a que se chama magia despertavam um grande interesse.

imagem-tom-doisSob a direção de Willermoz, que Saint-Martin havia conhecido, a Loja de Lyon se ampliava. A doutrina mágica e teúrgica de Martinès de Pasqually parecia das mais apropriedas a Willermoz. Difundir o Iluminismo na França era sua missão. Ele apreciava o trabalho em grupo. Objetivos comuns atraíram um ao outro esses dois alunos eminentes de Martinès, mas não tardaram a aparecer suas diferenças de caráter e de organização psíquica. Eles se separaram por questões relativas ao método que conduz a esse objetivo último.

Willermoz escolhia a via mental que exigia um desenvolvimento interlectual e que se exprimia na magia cerimonial, ao passo que Saint-Martin preferia a via cardíaca que se exprimia na teurgia pura. Ele considerava a magia indesejável, pois ela magnificava o poder de vontade individual que muitas vezes despertava o orgulho e que provocava, se não a queda, ao menos tropeços na via do renascimento. Inversamente, a teurgia, tal como a concebia Saint-Martin, desenvolvia uma humildade cada vez mais profunda por causa do restabelecimento do elo com Deus através da prece e da súplica. A humildade e a simplicidade, dois traços dominantes do caráter de Saint-Martin, faziam com que ele considerasse detestáveis a pompa e o aspecto cheio de esplendor prezados pelas Lojas. Ele estava em busca de uma expressão simples e direta das experiências da alma. Ele queria acima de tudo ver e demonstrar a essência preciosa deixada pela comunhão com os Poderes Superiores.

erros-da-verdadeÉ nessa época que ele escreve seu primeiro livro: Dos erros e da verdade. Sempre tentando em tudo o que empreendia estar o mais próximo possível da verdade, assinou o livro com o nome de « Filósofo Desconhecido ». Essa obra inspirada desencadeou muitas discussões por conta de seu conteúdo insólito, sobretudo no círculo dos Illuminati. A tese do livro é que, pelo conhecimento de sua própria natureza, o homem pode alcançar o conhecimento de seu Criador, de toda a Criação e também das leisfundamentais do Universo cujos reflexos encontramos na lei feita pelo homem. É sob essa luz que se mostra a importância do livre arbítrio – essa aptidão fundamental do homem que, quando mal utilizada, acarreta sua queda e que, quando utilizada para o bem, o conduz à libertação e à ressurreição no espírito.

A vida exterior do Filósofo Desconhecido foi uma trama viva na qual sua vida interior bordava a tela, e para que essa vida fosse perfeita ele sabia como utilizar o menor dos acontecimentos, fosse ele feliz ou infeliz, nele sempre encontrando um ensinamento oculto. Saint-Martin descobria o grande valor do silêncio, condição absolutamente necessária para ganrantir a inspiração. Não era o silêncio um manto que protegia o mundo invisível da profanação? Entretanto, a escola do silêncio era difícil para um místico com o seu temperamento – ele, cuja alma desejava acima de tudo projetar a luz nas trevas da ignorância. Um dogma seco só poderia servir de obstáculo para a torrente criativa de sua vida interior – o silêncio não podia encarcerar sua atividade, mas lhe serviu para tomar a medida do ouro espiritual antes de entregá-lo ao seu discípulo.

quadro-naturalVem em seguida o livro de Saint-Martin O Quadro Natural das relações que existem entre Deus, o homem e a natureza. O homem foi de tal forma privado de suas aptidões e meios superiores em razão de seu mergulho na matéria que perdeu a consciência de sua natureza primeira onde estava antes dessa queda – natureza a qual era um reflexo da imagem de Deus. Assim, o homem ficou sujeito às leis que reinam no mundo físico. Com essa queda, o homem se extraviou do âmbito de seus próprios direitos e deixou de ser um elo entre Deus e a natureza. O homem possui aptidões psíquicas que podem subordinar os sentidos e as forças da natureza se ele se tornar independente e se liberar da empresa dos sentidos, para não falarmos da possibilidade que ele tem de fazê-las servir para a expansão do campo de seu conhecimento. O homem, e esta é uma regra quanto a ele, possui a faculdade de perceber a lei, a unidade, a ordem, a sabedoria, a justiça e o poder num grau superior. Esforçando-se para tanto por sua própria vontade, ele pode regressar à fonte do conhecimento que ainda existe nele; ele pode restaurar a unidade que foi o começo de tudo. O renascimento do homem foi tornado possível pelo sacrifício do Salvador e agora qualquer homem pode tomar parte na obra de restauração da antiga ordem e voltar às leis antigas que estão a serviço de todas as criaturas.

Saint-Martin era uma adversário ferrenho da filosofia ateia e materialista que grassava naquela altura por toda a Europa. Naquele período, podemos constatar a amplitude da riqueza individual do Filósofo Desconhecido. Ele reuniu o conhecimento adquirido no mundo invisível com o da inteligência e ambos reunidos participam na plenitude de seus ensinamentos, os quais abordam todos os problemas que tratam das condições de desenvolvimento dos indivíduos, das sociedades e das nações. Essa é a época de sua atividade incansável e dos seus diversos contatos em seu próprio país e no exterior. Ele encontrava tempo para uma vasta correspondência e partilhava com os outros o fruto de seus conhecimentos. A influência de Saint-Martin e a difusão de seus ensinamentos na França, na Inglaterra e na Rússia datam de 1785. É o que demonstram suas cartas na obra de Longinov Novikoff e os Martinistas Russos.

Quando vai a Londres, encontra o místico William Law e o famoso clarividente Belz. Esse encontro se revelará muito importante. Torna-se amigo de Zinovieff e do príncipe Galitzine, que introduz o Martinismo na Rússia. Se o Martinismo foi criticado e perseguido, isto foi resultado da ignorância quanto à essência e os objetivos desta doutrina e também o produto de falhas humanas de martinistas ocasionais, naturezas falhas, imaturas e inconstantes para com os altos padrões morais exigidos pelos ensinamentos de Saint-Martin.

A difusão dos ensinamentos de Saint-Martin foi acompanhada de um sucesso social pessoal, mas a calorosa simpatia, as amizades sinceras despertadas no contato com sua personalidade cativante não obstaculizavam sua vida interior. Fazendo uma aplicação pessoal de seus ensinamentos, seu ser estava tão purificado que sua paz interior não poderia ser posta em perigo. Sua alma sedenta de mais luz a recebia numa proporção superior e a assimilava em benefício da posteridade. Atingiu seu apogeu quando conheceu as obras de Jacob Bœhme. Lá encontrou a solução categórica para todos os problemas no nível mais alto da escala que conduz à união com Deus Pai.

imagem-tom-03Jacob Bœhme não era um instrutor no sentido em que foi Martinès de Pasqually para o jovem Saint-Martin, porém sua importância foi maior, pois Saint-Martin agora estava bem preparado para receber uma revelação nova por intermédio de Jacob Bœhme. Uma nova luz invadia sua alma, era assimilada e apressava o processo interior de transformação. Encontramos um eco de suas experiências nas cartas enviadas a seu amigo próximo, Kirchberger, barão de Liebistorf. Jacob Bœhme era um místico pela graça de Deus. A revelação, a descida a luz, o êxtase da alma – muitas expressões podem descrever o choque da alma subitamente desperta.

Vemos diferentes modos de Iluminação quando o « vaso eleito » está preparado para receber. Na obra de Saint-Martin O Homem de Desejo, vemos o novo gérmen produzido pela assimilação da doutrina de Bœhme. Essa obra lembra um dos salmos que exprime o ardor da alma por Deus e que lamenta a queda do homem, seus erros e seus pecados, sua cegueira e sua ingratidão. Salientando a origem divina do homem, Saint-Martin viu a possibilidade de seu regresso a seu estado primeiro, quando estava de acordo com a lei de Deus. Porém, é apenas abandonando a via do pecado e seguindo os ensinamentos do Cristo redentor filho de Deus, que desceu das alturas de Seu trono celeste por amor a toda a humanidade, que o homem é digno apenas de adorar e que através do amor e imitando-o pode alcançar a salvação.

Quem sairá vencedor desse combate? Aquele que não se preocupa em ser reconhecido pelos homens ou com aquilo que pensam dele, mas que faz todos os esforços para não ser apagado da memória de Deus. Se não fosse a vinda de um homem que pôde dizer: « Não sou desse mundo », qual teria sido o destino da posteridade humana? A humanidade teria sucumbido nas trevas e teria se separado eternamente do reino do Pai. Entretanto, se muitas pessoas se desgarram do amor, pode ele renunciar à humanidade?

Em sua obra posterior Ecce Homo, Saint-Martin previne quanto ao perigo existente em buscar a excitação das emoções e procurar as experiências mágicas de baixo nível, tais como a divinação, o espiritismo e os fenômenos vários que são apenas a expressão de estados psico-físicos anormais do homem. Este caminho leva a humanidade para as trevas desconhecidas e perigosas e leva a uma queda ainda maior, ao passo que a salvação só pode ser obtida por um renascimento consciente.

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Em seu livro O Novo Homem, publicado no mesmo ano, o autor trata do pensamento como um órgão de renascimento que permite que se penetre no mais profundo do ser humano e se descubra a verdade eterna de seu ser. A alma do homem é um pensamento de Deus; o dever do homem é remover o véu que recobre o texto sagrado e então fazer o seu melhor para amplificá-lo e manifestá-lo ao longo de toda a sua vida. Em sua obra Do espírito das coisas, Saint-Martin declara que o homem, criado à imagem e à semelhança de Deus, pode penetrar o seio do Ser que está oculto em toda a criação e que, em virtude de sua visão interior clara, é capaz de ver e reconhecer as verdades de Deus depositadas na Natureza. A luz interior é um refletor que ilumina todas as formas. Da intensidade da luz depende o grau de iluminação e discernimento de que necessita o homem renascido em espírito lendo o Livro aberto da Vida.

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O livro de Saint-Martin O Ministério do Homem-Espírito completa todas as indicações precedentes apresentando um objetivo não-díspar – o da ascensão de uma alta montanha. O homem a escala, levado por uma necessidade interior e com o pressentimento da vitória que traz a liberdade após as tribulações e sofrimentos. Uma liberdade que, nesse caso, é sinônimo das maiores bênçãos que podem ser alcançadas na Terra. Existe um raio radical e único para descobrir e espalhar a moralidade e a bondade, e esse raio é o pleno desenvolvimento de nossa essência interior imanente. O mais alto sacrifício a ser feito para salvar a humanidade já foi oferecido; compete agora ao homem oferecer, com o sacrifício voluntário, sua própria natureza inferior – crucificá-la e, desta forma, libertá-la dos entraves opressores da natureza grosseira. É o retorno do filho pródigo para o Pai perpetuamente repleto de caridade e perdão. Isto é, alcançar a unidade perfeita com Ele: « Meu Pai e eu somos um. »

Cada alma possui seu próprio espelho que reflete a Verdade única. Cada alma possui um prisma e um arco-íris que lhes dá suas cores, e esta é a razão pela qual as obras de Saint-Martin não são semelhantes às de Bœhme. As missões desses dois homens na vida também eram diferentes, ainda que brotando da mesma fonte – da mensma necessidade de servir a humanidade abrindo para ela um novo caminho de progresso. Saint-Martin prezava altamente as obras de Bœhme, ainda que as considerasse bastante caóticas e confusas. Ele quis oferecê-las aos seus compatriotas e traduziu os livros mais importantes de Bœhme : A Aurora Nascente, os Três Princípios da Essência Divina e Quarenta Questões sobre a Alma. Após a morte do Filósofo Desconhecido, alguns breves escritos de sua autoria foram publicados, dentre os quais citaremos Pensamentos Escolhidos, numerosos fragmentos éticos e filosóficos, poesia – inclusive O Cemitério de AmboiseEstâncias sobre a Origem e o Destino do Homem, além de meditações e preces.

Saint-Martin se interessava pela ciências dos números. É fato que sua obra Dos Números permaneceu inacabada, embora contenha muitas indicações importantes que não poderiam ser encontradas alhures; ele analisou os números do ponto de vista metafísico e místico. Nos números, ele encontrou uma confirmação da queda e do renascimento do homem. O número não é considerado no sentido de um signo morto, mas sim como a expressão do Verbo Criador. Cada número indica uma determinada ideia e age em vários planos. Tudo é a expressão da unidade vertendo do seio da Divindade. O amor e o sacrifício estiveram na base do ato da criação. O pecado original, a queda do homem, sua corrupção e sua imersão na matéria devem ser redimidos pelo sacrifício e pelo amor ao Criador; só ele pode cumprir o retorno à Unidade.

As cartas e a atividade de Saint-Martin explciam sua relação com a Revolução Francesa, coisa que para muitos críticos permaneceu obscura, pois ele não podia ser compreendido senão por aqueles que receberam a Iluminação e pelos místicos. Detrás de todos os fenômenos que se produzem no plano físico há o filme do plano astral. Enquanto este não se manifesta no mundo visível, há possibilidades de mudança – possibilidades de alterar o curso das coisas pelo sacrifício e pelo apelo à misericórdia Divina. Conhecemos a história simbólica dos dez homens « justos » que teriam podido ter salvado Sodoma da destruição. Nem todos os filmes astrais são desenvolvidos, conforme se diz, porque podem ser mudados por fatores superiores no mundo invisível e também pelo homem na Terra. Todavia, uma vez o filme fatal tendo sido desenvolvidom nenhum poder humano pode deter o curso dos acontecimentos.

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Saint-Martin não apenas acreditava como também sabia que se a Providência permite uma vez a percepção de um filme, trazendo ao povo um infortúnio indescritível, a Redenção, se não for voluntária, deve ser imposta. Ele via a Revolução Francesa como uma imagem e como um detonador do Juízo Final que se produzirá nessa Terra gradualmente. Ele afirmava que a estrutura social não pode ser durável, não pode satisfazer a maioria e ter um caráter elevado se não for baseada sobre um conhecimento perfeito da organização psico-física do homem e se não corresponder às leis divinas refletidas nele. Um legislador deveria ter em si um conhecimento profundo da natureza interior do homem, sua conduta deve ser moral e ele deve encontrar uma ordem social que exprima conhecimento, justiça e poder. Todas as tentativas de se continuar com valores transitórios ou errôneos só conduzem ao desastre, qualquer que seja a duração dessas tentativas.

Em sua obra O Crocodilo, Saint-Martin descreve o modo como o mal se insinua nas coisas santas e com que perfídia destila seu veneno para destruir aqueles que são cegos e insensíveis. O mal, contudo, dispõe de um tempo limitado, é facilmente reconhecível por sinais perceptíveis e não pode mistificar aqueles que têm o olhar da consciência, que observam e que são cavaleiros de nobre desígnio. Quanto maior for o exército arregimentado sob as flâmulas do bem, mais rápida será a vitória sobre as fileiras contraídas e desleais, todavia cada vez mais enfraquecidas, do mal. A relação de Saint-Martin com a Revolução Francesa dependia do seu tipo de conhecimento – e que outro homem possuía tal visão interior das coisas espiritualmente? Ele compreendia o que estava acontecendo e trabalhava diligentemente no âmbito do misticismo. Fazia o seu melhor para resolver o problema de uma organização social que fosse justa e mais feliz. A influência da Revolução Francesa é evidente na obra de Saint-Martin. E não poderia ser de outra forma.

ilustracao_06_lcsmA doutrina de Saint-Martin expandiu-se rapidamente pelo mundo na forma de uma ordem iniciática e levou o nome de Ordem Martinista. Saint-Martin era a favor da iniciação individual. Cada membro era cuidadosamente escolhido e lhe era dada a oportunidade de um contato próximo e familiar. Então, o Iniciador lhe dava as indicações e os ensinamentos de que ele mais necessitava e que não estivessem acima de sua compreensão. O caminho era mais longo do que aquele consistindo em trabalhar com um grupo, porém era mais certo, uma vez que a doutrina pura permanecia inalterada, repousando sobre os membros da Ordem e ganhando dessa forma força e expressão. Nem todos os colégios dessa Ordem seguiram entretanto a linha recomendada por Saint-Martin e o resultado foi deplorável. Já dissemos que, segundo Saint-Martin, o homem era a chave de todos os mistérios do Universo – a imagem de toda a verdade. Seu corpo representava a imagem do mundo visível e se ligava a ele. O homem pode alcançar a verdade completa pelo conhecimento de sua própria natureza através de todas as aptidões que existem nele – físicas, intelectuais e espirituais.

Ele deve compreender profundamente o elo que existe entre sua consciência e seu livre arbítrio. Saint-Martin trata disso em sua « Nova Revelação ». Alguns traços destacam as similaridades que existem entre o homem e seu Criador. São os poderes criadores e o livre arbítrio ilimitado. Esses traços, ainda que não sejam mais do que reflexos imprecisos de Deus, podem operar em perfeita consonância com as leis – elas levam a Ele e conduzem o homem para a fonte da bênção. As mesmas características, se mal utilizadas, rompem a união natural com Deus e submetem o homem a poderes de nível inferior. O homem tem como poder a capacidade de reparar o mal feito se todas as suas aptidões forem inclinadas a esse único objetivo.

Saint-Martin fala da Unidade como de uma causa primária – como uma essência íntima sempre vivaz da qual tudo emana. Assim, cada ser, por mais distante que esteja do centro ou em qualquer plano de evolução onde se encontre, está ligado à causa primária e faz parte da Unidade, assim como o raio de sol que, sem levar em conta a distância devida à sua viagem pelos espaços infinitos, está sempre ligado ao sol por ondas vibratórias. A luz central de onde emanam todos os sóis, mesmo que fazendo parte do sistema inteiro de sóis e de raios, conserva sua independência e difere da luz artificial. Deus é tudo, mas tudo não é Deus. A doutrina de Saint-Martin se aplica a toda a humanidade. Ele desejava a união dela em nome do amor e considerava a fraternidade como a base da vida social. É um erro tomar a igualdade das bessoas como uma base. Saint-Martin considerava que a igualdade era uma constante matemática – uma expressão da ordem e da harmonia. A fraternidade é o fator que regula as relações entre os homens e que liga justiça e caridade, força e falibilidade.

tirania-lcsmO mal, a exploração e a tirania não podem residir na luz do amor fraterno. De uma fraternidade assim concebida deriva um sentido justo e adequado de igualdade o qual repousa sobre uma relação entre a razão entre direitos e deveres. Saïr, em seu Ensaio sobre Saint-Martin, explica isto da seguinte forma: « A razão entre a circunferência e seu raio, expresso em matemática pela letra ? é sempre constante. Seja de um milímetro ou de mil léguas de comprimento a circunferência de um círculo, a razão não varia e podemos afirmar, por conseguinte, que todas as circunferências têm entre si essa igualdade de razão »(2). A mesma coisa se aplica ao homem: a circunferência é seu direito; a lei é o limite que o homem não pode transgredir; e o raio, ou melhor, a superfície descrita ou coberta por seu raio em sua revolução ao redor do centro, é o campo de seu dever. Na medida em que as circunferências crescem, os círculos também aumentam; na medida em que os direitos do homem crescem, seus deveres aumentam proporcionalmente.


No universo cuja lei é a unidade na pluralidade, cada coisa repousa sobre a ordem e a harmonia. Para que a ordem e a harmonia existam, é necessário que cada coisa esteja em seu lugar, em harmonia perfeita com todos os seres e todas as coisas. O homem enquanto indivíduo é dos mais felizes quando tem em si um equilíbrio perfeito entre direitos e deveres. É sobre este equilíbrio que se baseia a igualdade: a mais direitos, mais deveres; a menos direitos, menos deveres. Como base da igualdade deve haver a fraternidade, sem a qual existiria o ódio e o ciúme entre o forte e o fraco, entre o rico e o pobre. Apenas a fraternidade pode unir a família humana nos laços da comunidade. Numa família amorosa e idealmente unida, cada um dos membros encontra seu lugar conforme sua força e suas aptidões, cada qual deseja voluntariamente arcar com o número de deveres correspondente e todos desejam fruir dos direitos que são incontestavelmente seus. O edifício social que se constrói sobre uma pretensa igualdade não tem fundações duráveis, pois nesse caso a fraternidade é imposta, e não uma condição voluntária. Da mesma forma, e conjuntamente a isto, uma partilha das tarefas efetuadas nem sempre concilia justiça e caridade; é uma coisa completamente diferente quando e solidariedade estão na base da fraternidade.

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A liberdade é para cada ser o efeito que segue a estrita observância dos limites demarcados pela lei. Um homem que transgride a lei perde sua liberdade proporcionalmente. Para ser livre, o homem deve cuidadosamente conservar o equilíbrio entre seus direitos e seus deveres; e se ele quiser ampliar o campo dos seus direitos deve reconhecer os deveres adicionais que isto necessariamente lhe trará. Em suma, diremos que a felicidade da humanidade consiste na união de todos os membros de sua grande família. Essa união só pode se consumar através da fraternidade que cria a igualdade pelo equilíbrio estável entre direitos e deveres, garantindo ao mesmo tempo a liberdade, a segurança e a preservação do conjunto.

 

Vemos, por tudo o que foi dito, que Saint-Martin era um profundo pensador cristão que desejava traçar um caminho para as ideias cristãs e utilizá-las para a elaboração da estrutura social. De acordo com ele, o amor do Cristo deve ter o direito de reger a vida do homem. A Ordem Martinista é também uma cavalaria cristã e cada um de seus membros deve trabalhar para o seu próprio desenvolvimento interior, passando por fases de renascimento sempre mais profundas até o ponto culminante do nascimento de Deus em si. O dever, enquanto membro da Ordem, é servir toda a humanidade sem medir esforços, sem levar em consideração a intensidade destes e nem tampouco o sacrifício que eles impõem. O Martinismo era dessa forma o anúncio da aproximação da Época do Cristo Cósmico que se revelará universalmente nas almas dos homens nesse grande processo de transformação.

Neste sublime trabalho, a Tradicional Ordem Martinista une-se à Antiga e Mística Ordem Rosacruz (AMORC), cuja influência iluminadora sobre a humanidade se exerce há séculos e que é como a fonte eterna de luz que verte para o renascimento da humanidade. A Tradicional Ordem Martinista e a AMORC eram afiliadas à organização internacional conhecida pelo nome de F.U.D.O.S.I. (Federação Universal das Ordens e Sociedades Iniciáticas). Para todos os martinistas que veneram a memória de seu bem-amado Mestre, o Filósofo Desconhecido, uma última adjuração está contida em seu testamento:

A única iniciação que eu recomendo e busco com o maior ardor de minha alma é aquela através da qual podemos penetrar o coração de Deus e induzir esse coração divino a penetrar o nosso. Assim se consumará o casamento indissolúvel que fará de nós o irmão – o esposo – de nosso Divino Salvador.

Não há outra via para alcançar essa Iniciação sagrada senão descendo ao mais profundo de nosso ser, não nos detendo jamais em nossos esforços enquanto não houvermos atingido o objetivo – a profundeza onde veremos a raiz vivificadora; e então ,de maneira natural, daremos um fruto correspondente à nossa natureza, como são os frutos das árvores dessa Terra, sustentados por diversas raízes através das quais os sucos vitais não cessam de subir.

Stanislas e Zofia Coszczynski (extraído do Rosicrucian Digest – 1947)

Textos para Refletir


Jacob Boehme

Jacob Boehme  é uma personagem fora do comum. Hegel via nele o primeiro filósofo alemão. Exerceu influência sobre Newton, Novalis, Schlegel, Goethe, Fichte e Schelling. Louis-Claude de Saint-Martin, por sua vez, o considerava como seu segundo mestre.

Harvey Spencer Lewis

Harvey Spencer Lewis desempenhou um papel importante na história do Rosacrucianismo restaurando essa antiga fraternidade a partir de 1919. Seu engajamento no Martinismo é menos conhecido, embora ele tenha também contribuído para o renascimento da Ordem Martinista antes da Segunda Guerra Mundial.

Papus

Gérard Encausse, conhecido como Papus, nasceu em 13 de julho de 1865 na Espanha, na cidade de La Coruña, filho de pai francês e mãe espanhola. Após haver passado sua juventude em Paris, estudou medicina. Em meados dos anos 1880, e antes mesmo de terminar sua formação, apaixonou-se pelo esoterismo